A novela Kulahela mal começou e já nos traz tópicos controversos e pertinentes em Moçambique.
Uma das razões da criação da AMETRAMO, a associação de médicos tradicionais é exactamente essa,
este ceticismo tem origens fortes no colonialismo, onde foi embutido nas cabeças dos negros africanos que o que vinha da Europa era melhor e que o negro era inferior. Juntamente a esse facto também estão os casos de aldrabões que se aproveitam das situações das pessoas, fazem falsas promessas e sem sequer terem formações devidas ou algum conhecimento.
Infelizmente, acabam todos sendo enquadrados dentro do mesmo cesto, sendo vistos da mesma maneira, até com os praticantes de práticas obscuras (os feiticeiros).
Kulahela tenta desmitificar e educar um pouco mais deste assunto e aprofundar mais nas religiões africanas, mostrando que elas são tão válidas e legítimas quanto as que vêm do ocidente e do oriente.
Mas aqui está a verdade incómoda: enquanto houver 1 médico para 35.000 pessoas, os curandeiros não são uma alternativa - são uma necessidade.
Quando o hospital está a horas de distância, quando não há dinheiro para tratamento, quando a medicina moderna simplesmente não chega - quem é que cura o povo?
São os curandeiros. Os médicos tradicionais. Aqueles que conhecem as ervas, que falam com os antepassados, que carregam conhecimento passado de geração em geração.
E no entanto, são desprezados. Ridicularizados. Vistos como primitivos.
Porquê? Porque o colonialismo ensinou-nos que tudo o que é africano é inferior. Que a cura só é legítima se vier num comprimido branco, receitado por um médico de bata branca, num hospital de paredes brancas.
Mas a realidade é que a medicina tradicional africana salvou vidas muito antes de existirem hospitais. E continua a salvar.
Kulahela não está a pedir para escolheres um lado. Está a pedir para respeitares ambos.
Medicina moderna? Essencial.
Medicina tradicional? Igualmente válida.
Não são inimigos. Podem - e devem - coexistir. Porque no fim, o objetivo é o mesmo: curar.
A questão não é "médico ou curandeiro?" - é "porque é que não podem trabalhar juntos?"
Acompanha Kulahela e faz parte desta conversa que Moçambique precisa de ter. Porque respeitar as nossas raízes não é regressar ao passado - é honrar quem somos. 🌿✨
A medicina tradicional africana não é superstição. É ciência ancestral. E está na hora de a tratarmos como tal.
